Quarta-feira, Junho 21, 2006

Meu Deus, a Sandy não tem MARCA!

Acho que foi nessa terça-feira. Estava eu, assistindo ao programa do Jô Soares. Não sou daqueles caras que vê todo o programa, mesmo quando os convidados são desinteressantes. Costumo, pelo menos, esperar o anúncio dos convidados da noite. Nessa noite, quem abre o programa é a Sandy, tocando com a sua banda (o Júnior, na bateria).
Curioso, resolvo continuar a assisti-la, para ver se ela continua igual. Ao longo da apresentação, acabo percebendo uma coisa que talvez já tivesse percebido antes, mas nunca havia parado para pensar: a Sandy não tem expressão!



Mais uma vez, caio no velho discurso da identidade. Assistindo ao show, tenho a impressão de que ela está ‘dublando’ uma artista, como se ela estivesse atuando em um filme sobre alguma artista, no estilo de uma biografia, e ela estivesse sido a atriz escolhida para interpretá-la. Utilizando o velho estereótipo de que nós homens não gostamos de relacionamentos ‘certinhos demais’ (não estou dizendo isso, apenas apontando o estereótipo exietente), ela me passa essa impressão, só que com relação à música. Falta ‘sal’ a Sandy.

Sempre fui crítico com relação à postura de Paula Toller, do Kid Abelha, pela total ausência de carisma em palco. Mas a Paulinha é diferente. Ela é ela mesma, ela não está dublando e nem vivendo uma personagem, é natural. Já a Sandy, parece que segue uma espécie de protocolo, como se houvesse uma cartilha a seguir. Qual é a marca da Sandy? Ela é pop? Ela faz música infanto-juvenil? É uma cantora romântica? A Sandy é ela mesma no palco?

A questão da marca, a identidade de qualquer coisa, é a cara do negócio. Se você possui um boteco ‘pé sujo’, a cara do negócio será você, será o atendimento que você dá à sua clientela. Não há como dublar. Será você mesmo. O boteco será bem freqüentado se você for um cara, no mínimo, simpático, se você souber dar atenção aos seus clientes, se você sentar na mesa com eles e, principalmente, se você souber fazer uma promoção relâmpago no momento certo ou, até mesmo, oferecer alguma cortesia aos clientes mais assíduos. Aí você estará causando a impressão.


Mas nem só de clientes assíduos vive um boteco. Há aquelas pessoas que passam nele apenas para comprar um cigarro avulso. Como a grande maioria dos bares, o atendente simplesmente pega o cigarro e vende ao consumidor, muitas vezes, sem dar uma única palavra. Nesse caso, esse consumidor levará alguma impressão do local? Lógico que não. Da próxima vez, não fará diferença ele comprar o cigarro avulso no boteco da próxima quadra, ou comprar ali mesmo. É tudo igual, não tem marca, não tem identidade, é o mesmo preço, é genérico.
Mas há os que fazem diferença:


- Ô amigo, me vê um Marlboro avulso?
- Boa Noite campeão, vai só o cigarro?
- Sim sim.
- Ok, tenha uma boa noite e obrigado pela preferência!
- Valeu.

Parece que esse diálogo simplório, não deixa nenhuma impressão no consumidor, certo? Porém, mesmo que o consumidor não se surpreenda com o fato do atendente ter falado com ele, ao invés de somente ter pegado o dinheiro e trocado pelo cigarro, fica no subconsciente dele uma mensagem clara de que o boteco é receptivo e simpático. Logo, ele voltará, quem sabe, até para tomar uma cervejinha. E é aí que o Zé vai mostrar todas as suas armas.
Esse exemplo simples ilustra que não adianta apenas cortar custos, baixar preços. Antes de qualquer coisa, ter identidade, e mostrar que está ali para servir, é fundamental. O Boteco do Zé já cativou até gente de outros bairros. No final do dia, o Zé sempre senta em uma mesa com alguns clientes, para bater papo, contar piadas.


Isso tudo parece óbvio demais, mas está cada vez mais raro ser surpreendido por um “diálogo complexo” desses. Há alguns dias, no restaurante aqui da esquina, cheguei às 14 horas para almoçar (o estabelecimento fica aberto até as 14:30h). Assim que cheguei, ouvi:

- Boa Tarde amigo! Hoje temos um buffet todo especial, você chegou em boa hora.
- Boa Tarde, que bom!
- Temos uma salada especial e uma paella caprichada. Espere apenas uns cinco minutos, para que possamos aquecer o seu prato, pois já está um pouco fria.
- Ok.

Simples? Até demais. Não me incomodaram. Estou ali para comer, e não para conversar. Tem gente que se excede mesmo, fica conversando, exagera na coisa do querer agradar, e acaba incomodando, quando só queremos ter um bom almoço. Mas não foi esse o caso, fui bem atendido, de forma atenciosa e rápida. Já sou cliente. Esses dois casos simples, já imprimem certa identidade ao bar e ao restaurante. Não é nada demais, mas nem o bar e nem o restaurante são genéricos. Eles não são “mais um”. É bom ir neles.
Voltando à Sandy, sinceramente eu não sei responder se ela é pop, ou se ela canta para o público infanto-juvenil ou ainda, se é uma cantora romântica. Eu não sei. Para mim, ela passa a impressão que eu já comentei. Falta algo a ela. Falta uma marca, uma atitude, uma identidade, uma cara, falta um jeito de ser mais cativante, porque assim, ela é só mais uma e, desse jeito, fica muito fácil de encontrarmos cantoras “clone” ou até melhores do que ela, ali mesmo, no próximo quarteirão, comprando um cigarro avulso no bar do Zé, ou almoçando no restaurante da esquina.

1 Comments:

At 3:48 PM, Anonymous Fellipe said...

Cara, que texto bacana! É um tema bem cruel para discutirmos numa mesa redonda hein? Ainda mais, por estarmos rodeados todo dia na nossa faculdade por produtos pré-fabricados assim, como a Sandy, sem desmerecer a voz dela, mas voz somente na música, você mesmo sabe, não dá certo por muito tempo. Pegue o exemplo de Frank Sinatra ou Elvis, que nem sempre eram os compositores ou tocavam algum instrumento, mesmo assim, o diferencial deles estava em "algo além", algo de carismático que eles tinham, que o público admirava muito. Se a Sandy tem isso, talvez tenha - muitos a admiram, mas como você mesmo diz, ela não tem expressão, mesmo caso da cinquentona Vera Fisher, se você olha para ela - vê apenas um rosto entalhado, sem movimento artístico, moldado para ser perfeitamente inespressivo. Assim como na arte, na música, nas empresas, em nós mesmos, se tivermos coragem de "nos revelar e dizer realmente quem somos"( porque evidentemente todos nós somos diferentes e poucos têm coragem de mostrar essa diferença, talvez por medo de realmente ser diferente), temos de admitir nossos erros, nossas falhas juntamento com nossas virtudes. Os grandes nomes, os grandes mestres, os grandes artistas conseguiram mostrar quem eram, o que queriam - Bill Gates confiou em si mesmo, quando montou uma pequeno empresa de garagem. Talvez nem todos os seus amigos confiavam nele, quando idealiza a Microsoft. Mudando completamento de ramo - Bob Dylan - por que ele mesmo não quis ser como Elvis? Por não ter voz suficiente? Por não ter o perfil de corpo de Elvis? Seguiu assim o seu jeito, o seu modo de encarara a música. Dificilmente um artista se modificaria tanto durante os anos, mesmo assim, ele não perdeu a sua marca - essa marca de camaleão folk, de sempre se adiantar ao tempo e de não seguir modismos. Grandes artistas fazem antes da moda, ultrapassam o que está ocorrendo, porque são visionários, pensam duas vezes antes de os outros que estão na moda. Os que estão na moda estão porque lhe foram passados conceitos para serem usados. Voltando à Sandy, com certeza, ela é produto de mistura de modismos - mistura de pop, com mundo "pop-malhação" com "resultado do dinheiro que chitão" depositou em sua mesada" com babaquices de MTV, tudo somado com uma carinha de inocente. Realmente, a mídia está cheia dessas coisas. E um cara como Abunjanra é ignorado pela TV, passando lá pelas 22:30 da noite no domingo, na TV CULTURA, enquanto Vera Fisher está no horário nobre. Mas, o que temos que reclamar? Sempre foi assim. Quem quer modismos, se torna o que consomo. Quem quer o diferencial - está caminhando para esse diferencial - nas empresas, na cultura, em tudo, em sia mesmo também. Abraço, marketing man. Saudações.

 

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